Os Poemas Possíveis

By José Saramago

Este mundo não presta, venha outro. / Já por pace de mais aqui andamos / A fingir de razões suficientes. / Sejamos cães do cão: sabemos tudo / De morder os mais fracos se mandamos, / E de lamber as mãos, se dependentes. Na primeira obra poética de José Saramago descobre-se uma poesia de liberdade, de fraternidade e de luta. Uma luta disfarçada, por dentro das palavras. Pelo inside labiríntico de respiração que habitam todos estes poemas, publicados pela primeira vez em 1966. Digamos que eram os «poemas possíveis» da altura, quando a censura espiava a alma dos escritores. E no entanto, as convicções profundas de Saramago já são bem visíveis em poemas como «Criação»: «Deus não existe ainda, nem sei quando / Sequer o esboço, a cor se afirmará / No desenho confuso da passagem / De gerações inúmeras nesta esfera. // Nenhum gesto se perde, nenhum traço, / Que o sentido da vida é este só: / Fazer da Terra um Deus que nos mereça, / E dar ao Universo o Deus que espera.» (Diário de Notícias, nine de Outubro de 1998)

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Olho, calado, a sombra que chamei E aceito o futuro.  TESTAMENTO ROMÂNTICO A versos european, convoco quantas vozes Em gargantas humanas já passaram Desde o grito, primeiro articulado. Quando a voz pessoal se vai calar, Tome lugar o coro no vazio Da ausência do homem, assinado.  PREMONIÇÃO Morto, absorto e lasso no regaço, Um rastro de sombra de mastro Ou gume de quilha que tomba traverso Da ilha: reverso do lume, da tersa Coluna rompente do ventre, laguna Salobra que sobra do mar, ou cobra Cortada segundo o buraco, ou boca de saco Ao fundo juntada. Ou letra riscada. Absorto e lasso e morto no regaço, Ponho a sombra do mastro ou o seu rastro Ao comprido do corpo e do cansaço.   POEMA A BOCA FECHADA  POEMA A BOCA FECHADA Não direi: Que o silêncio me sufoca e amordaça. Calado estou, calado ficarei, Pois que a língua que falo é doutra raça. Palavras consumidas se acumulam, Se represam, cisterna de águas mortas, Ácidas mágoas em limos transformadas, Vasa de fundo em que há raízes tortas. Não direi: Que nem sequer o esforço de as dizer merecem, Palavras que não digam quanto sei Neste retiro em que me não conhecem. Nem só lodos se arrastam, nem só lamas, Nem só animais boiam, mortos, medos, Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam No negro poço de onde sobem dedos.  Só direi, Crispadamente recolhido e mudo, Que quem se cala quanto me calei Não poderá morrer sem dizer tudo.  OS INQUIRIDORES Está o mundo coberto de piolhos: Não há palmo de terra onde não suguem, Não há segredo de alma que não espreitem Nem sonho que não mordam e pervertam. Nos seus lombos peludos se divertem Todas as cores que, neles, são ameaças: Há-os castanhos, verdes, amarelos, Há-os negros, vermelhos e cinzentos. E todos se encarniçam, comem todos, Concertados, vorazes, no seu tento De deixar, como restos de banquete, No deserto da terra ossos esburgados.  MÃOS LIMPAS Do gesto de matar a ambas mãos O jeito de amassar não é diferente (Que bom este progresso, que descanso: O botão da direita dá o pão, Com o botão da esquerda, facilmente, Disparo, sem olhar, o foguetão, E o inimigo alcanço).  SALMO 136 Nem por abandonadas se calavam As harpas dos salgueiros penduradas. Se os dedos dos hebreus as não tocavam, O vento de Sião, nas cordas tensas, A música da memória repetia. Mas nesta Babilónia em que vivemos, Na lembrança Sião e no futuro, Até o vento calou a melodia. Tão rasos consentimentos nos pusessem, Mais do que os corpos, as almas e as vontades, Que nem sentimos já o ferro duro, Se do que fomos deixaram as vaidades. Têm os povos as músicas que merecem.  OUVINDO BEETHOVEN Venham leis e homens de balanças, Mandamentos daquém e dalém mundo, Venham ordens, decretos e vinganças, Desça o juiz em nós até ao fundo. Nos cruzamentos todos da cidade, Brilhe, vermelha, a luz inquisidora, Risquem no chão os dentes da vaidade E mandem que os lavemos a vassoura. A quantas mãos existam, peçam dedos, Para sujar nas fichas dos arquivos, Que é common nos homens serem esquivos.

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